domingo, 19 de junho de 2016

Pedro Nava e Geir Campos são citados como poetas brasileiros por Pablo Neruda













Dica de Duda Fernandes
Jornalista e fundadora do Latitudes 


Neruda





Para este domingo, vamos de poesia. Ao ceder uma entrevista à Clarisse Lispector, Pablo Neruda, cita como poetas brasileiros Pedro Nava e  Geir Campos-   Ambos, foram  amigos queridos do meu pai daí o carinho especial. 



Pedro Nava 


Muitos brasileiros nunca ouviram se quer falar de nenhum dos dois.  Tive a oportunidade de trabalhar em editoras de livros, na Bienal do Livro e mais recentemente nas Bibliotecas Parques do Estado do Rio de Janeiro e o que pude perceber é que assim como Nava e Campos, muitos autores reconhecidos por grandes nomes da literatura mundial, não são conhecidos da grande massa tupiniquim. Há sim uma grande ode, aos não menos merecidos poetas, mas, são quase sempre os mesmos nomes de sempre. Não se abre o leque cultural, porque? 




Geir Campos 


Geir Campos é considerado um dos mais importantes representantes da Geração de 45, movimento da poesia brasileira em que predominavam o rigor formal e o intelectualismo, que teve como articuladores, além do próprio Geir, poetas como Péricles Eugênio da Silva Ramos e Domingos Carvalho da Silva. Antônio Cândido considera Geir Campos um dos mais significativos e atuantes da Geração de 45. Alfredo Bosi o coloca como "um dos virtuoses de sua geração" e Manuel Bandeira o considera o Guilherme Almeida da Geração de 45. Antônio Houaiss o universaliza, quando diz que "vivendo os vaivéns de nosso tempo, a obra de Geir Campos vem também apresentando facetas várias - mas sempre com uma garra de tão honesta prospecção poética, que rotulá-la sob uma rubrica qualquer seria reduzi-la a uma imobilidade que lhe é a face oposta."
http://www.avozdapoesia.com.br/autores.php?poeta_id=265




 " Defunto" de Pedro Nava, foi citada na entrevista que Pablo Neruda dêu à também genial Clarice  Lispector que era  a poesia brasileira que mais lhe agradava e que sempre lia em voz alta para os amigos: "Admiro Drummond, Vinícius, Jorge de Lima. Não conheço os ma­is jovens e só chego a Paulo Men­des Campos e Geir Campos. O poema que mais me agrada é o “Defunto”, de Pedra Nava. Sem­pre o leio em voz alta aos meus amigos, em todos os lugares" (http://www.revistabula.com/955-clarice-lispector-entrevista-pablo-neruda/)












DEFUNTO
Pedro Nava 

Quando morto estiver meu corpo, evitem os inúteis disfarces, os disfarces com que os vivos procuram apagar no morto o grande castigo da morte.
Não quero caixão de verniz nem ramalhetes distintos, superfinos candelabros e nem as discretas decorações. 
Quero a morte com mau gosto!
Dêem-me coroas de pano, flores de roxo pano, angustiosas flores de pano, enormes coroas maciças como salva-vidas, com fitas negras pendentes.
E descubram bem a minha cara.
Que vejam bem os amigos a incerteza, o pavor, o pasmo. E cada um leve bem nítida a idéia da própria morte.
Descubram bem minhas mãos!
Meus amigos, olhem as mãos! 
Onde andaram, o que fizeram, em que sexos demoraram seus dedos sabidos?
Meus amigos, olhem as mãos que mentiram a vossas mãos!
Foram esboçados nelas todos os gestos malditos: até os furtos fracassados e os interrompidos assassinatos. 
Mãos que fugiram da suprema purificação dos possíveis suicídios.
Descubram e exibam todo meu corpo, as partes excomungadas, 
as partes sujas sem perdão.
Eu quero a morte nua e crua, terrífica e habitual.
Quero ser um tal defunto, um morto tão acabado, tão aflitivo e pungente, que possam ver, os meus amigos, que morre-se do mesmo jeito como se vão os penetras escorraçados, as prostitutas recusadas, os amantes despedidos, que saem enxotados mas voltariam sem brio a qualquer gesto de chamada.
Meus amigos, tenham pena – senão do morto – aos menos dos dois sapatos do morto. Olhem bem para eles. E para os vossos também!

















poema Amanhecer de Geir Campos
https://www.youtube.com/watch?v=VE5QJwi2pyo

VIGILIA

GEIR CAMPOS 

Não, meu amigo, não precisas ter
nenhum cuidado: havendo o que cuidar,
cuidarei eu constantemente a te poupar
coitas que vão teu coito arrefecer.

Coitado de quem deixa a noite ser
vinda fora de tempo e de lugar
sombreando as alturas do prazer
com rasteiras tribulações do lar.

Antes que venha a noite, vai o dia
mostrando os horizontes de alegria
que tem a palmilhar no corpo dela:

são costas, são gargantas, são colinas
— toda uma geografia em que te empinas
enquanto pelo teu meu amor vela.












Fica então a dica aos educadores, vamos abrir o conhecimento desta nova geração de leitores.